Sexta-feira Santa propõe reflexão entre os cristãos
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Clero da Diocese de Janaúba reunido durante celebração. Foto: Diocese de Janaúba. |
Com a modernização, sobretudo nas grandes cidades, alguns destes hábitos têm se perdido. O radialista Rubens Martins conta que na infância, na zona rural de Monte Azul, as pessoas não saíam, não falavam alto, as crianças não brincavam e matar animais, então, era terminantemente proibido. Algumas memórias ficaram marcadas para ele.
“Era engraçado porque o pessoal aproveitava a Sexta-feira Santa para comprar fiado, já que os comerciantes, ainda que vendessem algum produto, não podiam pegar em dinheiro. Me lembro que quando criança minha mãe não deixava nem ver desenho animado, não tirava leite, nem corria, até comer era difícil. Uma vez sai escondido para pescar e acabei pegando uma cobra fisgada pelo anzol. Ouvi muita bronca”, relembra.
Para Rubens, muitos destes hábitos mudaram. Atualmente ele mora em Montes Claros e na correria do trabalho, o feriado passou a ser um dia para passear com a família, para descansar e aproveitar o recesso. “Para as pessoas mais antigas, os costumes são os mesmos, mas eu mudei completamente. Se estiver na casa dos meus pais, respeito à tradição por eles, mas, para mim, a Sexta Santa é um dia para visitar alguém, passear, aproveitar o feriado com a família”, conta.
Na contramão da flexibilização da data, alguns jovens, mais próximos da religiosidade, têm mantido a tradição de se enlutarem e guardarem a Sexta Santa como aprenderam com os mais antigos. A estudante Isabella Fonseca acredita que a penitência é um sinal de respeito e agradecimento a Deus.
“É uma forma de dizermos obrigada a quem deu a vida por nós. Aprendi a guardar a Sexta-feira Santa com minha família e, desde criancinha, procuro fazer o mínimo de barulho possível, não comer carne, não sair, não ter pensamentos negativos, não brigar com as pessoas”, diz.
Para Isabella, até a natureza se enluta com a morte de Jesus e respeita o momento. “Se reparar bem, até a natureza se acalma nesse dia a partir das 15h, que é o horário em que Jesus morreu na cruz. Os pássaros fazem silêncio, tudo se tranquiliza. Eu acredito que seja por causa disso”, observa.
O padre Edilson Bonfim da Silva, administrador paroquial da Igreja Nossa Senhora do Carmo, é a favor deste resgate às coisas sagradas. Apesar de as leis do catolicismo não proibirem claramente algumas práticas, o pároco acredita que, independente de que maneira for feito, o importante é que as pessoas reflitam sobre a morte de Jesus. “Acredito que o que mais importa é ter respeito e manter a tradição. É um dia de luto, de sofrimento, de dor para nós. Precisamos refletir sobre o quanto Jesus sofreu para nos salvar”, afirma.
O religioso pondera, ainda, que as boas ações não bastam na Sexta Santa, uma vez que todos os dias elas podem ser praticadas. “Muitas coisas boas têm sido perdidas. As boas obras, coração bom, caridade, somos convidados a fazer sempre. A questão é que a sociedade nos corrompe. Temos que fazer um retorno rumo às coisas de fé, rever os valores. O temor a Deus tem se perdido. A sociedade tem se tornado relativista por isso, Deus não é mais levado a sério, não é mais adorado. Muitas vezes queremos servir a dois senhores, e a matéria fica em primeiro lugar”, comenta.
Padre Edilson acredita que o mundo capitalista é quem pauta os hábitos das pessoas, o que tem sido muito prejudicial para a fé. “Devido à força do mundo pós-moderno, do capital selvagem, o mundo tem afastado e relativizado a tradição da fé. Vivemos um mundo de coisas líquidas, onde as pessoas tem perdido a fé nas coisas sagradas. Quem dita às normas é o consumo, o capital. É preciso voltar às fontes, olhar pelo cristo que padeceu e ressuscitou para nos salvar”, argumenta.
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