Bruno Kaique dos Santos, adepto de uma religião de matriz africana e responsável por um terreiro no bairro Dente Grande, afirma viver um verdadeiro pesadelo de perseguições, ameaças de morte, homofobia e intolerância religiosa e política. Mesmo garantindo possuir todos os alvarás de funcionamento do espaço religioso, ele relata que os ataques não cessaram. O episódio mais grave aconteceu no domingo (25), quando foi atingido por um carro enquanto conduzia uma motocicleta com uma mulher na garupa. O caso foi registrado pela Polícia Militar.
O que deveria ser uma convivência pacífica entre vizinhos se transformou, segundo a denúncia de uma das vítimas, em uma sequência assustadora de ameaças, discriminação e violência no município de Janaúba, no Norte de Minas Gerais. No centro dessa história está Bruno Kaique dos Santos, praticante de uma religião de matriz africana, que afirma estar sendo perseguido há bastante tempo em razão de sua fé, orientação sexual e posicionamento político.
Bruno mantém um terreiro religioso localizado na Rua Rio Preto, no bairro Dente Grande, em Janaúba. Segundo ele, o espaço funciona regularmente, com todos os alvarás exigidos, mas nem mesmo a documentação e a legalidade das atividades religiosas teriam sido suficientes para impedir os episódios de hostilidade que denuncia.
O caso ganhou contornos ainda mais graves no último domingo, 25 de outubro, quando Bruno relatou ter sido alvo de duas situações envolvendo um mesmo automóvel. A segunda terminou com ele e uma mulher feridos após uma colisão.
Da intolerância religiosa às ameaças de morte: Bruno afirma viver sob constante perseguição
De acordo com o relato apresentado à Polícia Militar de Minas Gerais, Bruno já enfrentava desentendimentos com um vizinho e vinha recebendo ameaças de morte.
A vítima afirma que a situação ultrapassou os limites de conflitos pessoais e passou a envolver ataques relacionados à sua religião, orientação sexual, raça e posicionamento político.
Para Bruno, os episódios representam uma perseguição contínua contra sua identidade e sua liberdade de exercer a própria fé.
O líder religioso destaca que mantém seu terreiro regularizado e questiona por que, mesmo cumprindo as exigências legais, continua enfrentando situações que considera discriminatórias e ameaçadoras.
A Constituição Federal assegura a liberdade de crença e o livre exercício dos cultos religiosos, direitos fundamentais que devem ser respeitados independentemente da religião professada.
Primeira denúncia: homem teria tentado atropelar Bruno na calçada de sua residência
Segundo o registro policial, por volta das 12 horas do domingo (25), um indivíduo conhecido como Lázio teria tentado atropelar Bruno na calçada de sua residência.
Conforme a denúncia, o suspeito utilizava um Fiat Palio, mas Bruno conseguiu se esquivar, evitando ser atingido.
O episódio, segundo a vítima, teria ocorrido em meio ao histórico de ameaças e desentendimentos que já vinha enfrentando.
Entretanto, o que aconteceu posteriormente transformou a denúncia em um caso ainda mais preocupante.
Segundo episódio: Bruno e mulher na garupa são atingidos por carro durante comemoração eleitoral
Ainda no domingo, quando saiu para participar de uma carreata de comemoração das eleições de 2026, Bruno conduzia uma motocicleta que tinha como passageira Emanuelly Rodrigues de Oliveira Amaral.
Foi nesse momento que aconteceu uma colisão envolvendo a motocicleta e o mesmo Fiat Palio mencionado na primeira denúncia.
Segundo Bruno, o automóvel era conduzido por André Marques Silveira, apontado por ele como responsável pelo atropelamento.
A vítima sustenta que o episódio não teria sido um simples acidente de trânsito, mas uma ação intencional relacionada às perseguições e ameaças anteriores.
A Polícia Militar informou no registro da ocorrência que analisou imagens de uma câmera de videomonitoramento da corporação e constatou a ocorrência de um acidente de trânsito envolvendo a motocicleta, ocupada por duas pessoas, e o automóvel mencionado.
A constatação policial da colisão, entretanto, não estabelece por si só que houve intenção de atropelar ou matar as vítimas.
Bruno fica ferido e mulher sofre escoriações: suspeita de tentativa de homicídio aumenta gravidade da denúncia
A violência do episódio deixou consequências físicas para os dois ocupantes da motocicleta.
Bruno sofreu ferimentos e precisou ser socorrido por populares, que o encaminharam ao Hospital Regional de Janaúba. Posteriormente, ele retornou para sua residência.
Durante o atendimento da ocorrência, os policiais constataram que Bruno estava com uma das pernas enfaixada, situação registrada na documentação policial.
Emanuelly Rodrigues de Oliveira Amaral, que estava na garupa da motocicleta, sofreu escoriações leves.
Diante das ameaças anteriores e das circunstâncias relatadas, Bruno levanta a suspeita de que tenha sido vítima de uma tentativa de homicídio.
A presença de Emanuelly na motocicleta também exige atenção à violência sofrida pela passageira. Contudo, uma eventual caracterização como tentativa de feminicídio dependeria de elementos que demonstrassem intenção de matar a mulher por razões da condição do sexo feminino, circunstância ainda não estabelecida pelas informações disponíveis.
Polícia Militar procura suspeito, mas ele não é localizado
Após colher as informações e verificar as imagens de videomonitoramento, os policiais militares se deslocaram até a residência do homem apontado como responsável pelo segundo episódio.
Entretanto, ele não foi localizado durante as diligências relatadas no registro policial.
Bruno reafirmou aos militares que vem sofrendo perseguições de natureza racial, homofóbica e religiosa por parte dos indivíduos mencionados.
A ocorrência foi registrada para as providências cabíveis.
Até o momento, as informações apresentadas não indicam conclusão de investigação sobre a motivação da colisão, nem confirmação de enquadramento dos envolvidos por tentativa de homicídio ou crimes motivados por preconceito.
Um terreiro, uma fé e o direito de existir sem medo
Muito além de um acidente de trânsito, a denúncia apresentada por Bruno Kaique dos Santos levanta questionamentos sobre intolerância religiosa, discriminação e o direito à segurança de pessoas que professam religiões de matriz africana.
No bairro Dente Grande, em Janaúba, um espaço que deveria representar espiritualidade, acolhimento e liberdade religiosa tornou-se, segundo seu responsável, o centro de um histórico de conflitos e ameaças.
Bruno afirma que não busca privilégios, mas o direito de exercer sua religião, manter seu terreiro em funcionamento e viver sem medo de sofrer novas agressões.
O caso chama a atenção para a necessidade de apuração rigorosa das denúncias, especialmente diante do relato de ameaças de morte anteriores ao atropelamento.
As circunstâncias da colisão, a possível intencionalidade da conduta e as alegações de intolerância religiosa, racismo, homofobia e perseguição política deverão ser esclarecidas pelas autoridades competentes, assegurando-se também o direito de defesa dos apontados na ocorrência.
Enquanto aguarda respostas, Bruno carrega as marcas físicas do episódio e relata o peso de uma perseguição que, segundo ele, já dura muito tempo.
Em Janaúba, a denúncia deixa uma pergunta inquietante: até onde pode chegar a intolerância quando o direito de professar uma fé passa a ser acompanhado pelo medo de perder a própria vida?
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