Investigação da Polícia Civil aponta que Sidirlei Silva Machado teria coordenado, de dentro da unidade prisional no Norte de Minas, a ação criminosa que resultou em sequestros e três mortes; corpo da pequena Evellyn nunca foi encontrado
Uma trama macabra que começou a centenas de quilômetros do local dos crimes teria sido articulada de dentro do Presídio de Francisco Sá, no Norte de Minas Gerais. É o que aponta a conclusão da investigação da Polícia Civil de Minas Gerais sobre o desaparecimento de Evellyn Jasmin Machado Acácio, de apenas 8 anos, sequestrada em junho de 2023, em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Depois de mais de três anos de investigação, a Polícia Civil concluiu que Evellyn foi assassinada. O corpo da criança nunca foi localizado, mas, segundo a corporação, provas técnicas, depoimentos, comunicações e a reconstrução dos passos dos suspeitos permitiram esclarecer a dinâmica do crime.
E o detalhe que torna o caso ainda mais estarrecedor está no Norte de Minas.
Segundo a investigação, Sidirlei Silva Machado, de 42 anos, pai da própria Evellyn, é apontado como mandante e teria coordenado a ação criminosa de dentro do Presídio de Francisco Sá, onde estava e permanece detido.
Presídio de Francisco Sá entra no centro da investigação
A investigação colocou a unidade prisional de Francisco Sá em um ponto crucial da reconstrução do crime.
Com apoio da Polícia Penal, investigadores realizaram uma busca na cela de Sidirlei e apreenderam aparelhos que, conforme a Polícia Civil, eram utilizados por ele. A apreensão teria interrompido a comunicação entre o investigado e os demais envolvidos.
Esse rompimento de contato teria sido decisivo para os acontecimentos seguintes.
De acordo com a investigação, os sequestradores tentaram falar com Sidirlei, mas não conseguiram. Evellyn conhecia integrantes do grupo e poderia reconhecê-los. Sheyla Cerqueira, por exemplo, era chamada de “tia” pela criança.
Para a Polícia Civil, diante do medo de serem identificados pela menina, o grupo decidiu assassiná-la.
Mãe de Evellyn seria o alvo inicial
A apuração aponta que a pequena Evellyn não era inicialmente o principal alvo da ação. O plano teria como alvo sua mãe, Katlyn Lorrayne Oliveira, de 29 anos, ex-companheira de Sidirlei.
Katlyn vinha realizando denúncias contra o ex e pessoas ligadas a ele. Segundo a polícia, ela já havia sido vítima de uma ação violenta anterior, quando comparsas teriam sido enviados para quebrar suas pernas na tentativa de fazê-la interromper as denúncias.
Mesmo após a agressão, Katlyn não teria recuado.
A investigação aponta que a nova ação foi cuidadosamente preparada. Um rastreador teria sido instalado no veículo da mulher para que o grupo acompanhasse seus deslocamentos em tempo real. A intenção inicial, segundo os investigadores, seria sequestrá-la, agredi-la e cegá-la.
Mas o que se seguiu terminou em uma sequência brutal de mortes.
Sangue e terror a partir de um salão de beleza
Katlyn estava em um salão de beleza acompanhada da filha quando a ação criminosa começou.
A proprietária do estabelecimento, Ana Raquel Brito Santana, de 32 anos, tentou impedir que Katlyn fosse levada e acabou atingida na cabeça com um martelo.
As duas mulheres e Evellyn foram colocadas no carro.
Durante o trajeto, Katlyn conseguiu abrir a porta e saltar do veículo. Os criminosos teriam retornado e perseguido a mulher. Ela foi atingida por disparos e morreu.
Ana Raquel, já gravemente ferida, continuou sob domínio dos criminosos e posteriormente também foi baleada. Seu corpo foi deixado dentro do veículo, abandonado às margens da BR-040.
Evellyn permaneceu nas mãos dos sequestradores.
Aos 8 anos, Evellyn foi levada para um cativeiro
A Polícia Civil identificou um Peugeot 208 alugado por Sheyla Cerqueira que teria sido utilizado no apoio à operação criminosa. Segundo a investigação, cerca de R$ 800 foram pagos pelo aluguel de um sítio na região de Ravena, em Sabará.
As placas do carro teriam sido adulteradas e os vidros receberam película escura na véspera do crime.
Foi nesse veículo, segundo a polícia, que Evellyn foi levada para o cativeiro.
Após perderem o contato com Sidirlei, que estava preso em Francisco Sá, os integrantes do grupo teriam ficado diante de um problema: a criança conhecia seus sequestradores.
A menina de apenas 8 anos poderia identificá-los.
A conclusão dos investigadores é devastadora: Evellyn foi levada do sítio para uma região de mata próxima à Estrada do Capão, em Sabará, onde teria sido assassinada.
Confissão ajudou polícia a reconstruir os últimos passos da criança
Um dos indiciados, Alex Lucas, de 37 anos, confessou participação no crime na presença de um advogado e colaborou com a investigação.
Ele levou os policiais até a região onde afirmou ter visto Marcos Evangelista, conhecido como “Torosca”, retirar Evellyn do porta-malas e entrar com a criança na mata.
Alex declarou não ter presenciado o assassinato.
Segundo a Polícia Civil, porém, as informações fornecidas por ele foram confrontadas com outras evidências e corroboradas por elementos técnicos da investigação.
Sheyla também prestou depoimento e forneceu informações sobre a atuação do grupo.
Corpo de Evellyn continua desaparecido
Policiais civis, bombeiros e cães farejadores realizaram buscas na tentativa de encontrar os restos mortais da menina. Técnicas especializadas foram empregadas em áreas de mata, mas o passar dos anos tornou a localização ainda mais difícil.
Até o encerramento do inquérito, Evellyn não havia sido encontrada.
Mesmo sem o corpo, a Polícia Civil sustenta que o conjunto probatório permite concluir que a menina foi assassinada.
Mais de 18 mil quilômetros atrás da verdade
A dimensão da investigação impressiona. Em mais de três anos, as equipes percorreram mais de 18 mil quilômetros, passando por 31 municípios de cinco estados: Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Goiás.
Veículos, comunicações, trajetos e outros elementos foram analisados para reconstruir o planejamento, a execução e os acontecimentos posteriores aos crimes.
Quatro pessoas foram indiciadas: Sidirlei Silva Machado, Alex Lucas, Sheyla Cerqueira e Marcos Evangelista, o “Torosca”.
Marcos foi assassinado a tiros em setembro de 2024. A morte é investigada em outro inquérito, e a Polícia Civil não descarta eventual ligação com o caso Evellyn.
De Francisco Sá a Sabará: investigação aponta uma trama de horror
O que começou, segundo a Polícia Civil, com ordens e articulações atribuídas a um homem preso no Presídio de Francisco Sá, no Norte de Minas, terminou a centenas de quilômetros dali em uma sequência de violência que deixou Katlyn e Ana Raquel mortas e uma criança de 8 anos desaparecida para sempre.
O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público, que já apresentou denúncia à Justiça.
Para os investigadores, não restam dúvidas de que Evellyn foi assassinada após deixar o cativeiro.
Agora, além da responsabilização dos acusados, permanece uma pergunta dolorosa que atravessa mais de três anos de investigação:
onde está o corpo da pequena Evellyn?
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